[Resenha] A outra face - Sidney Sheldon

4 de fevereiro de 2022

Hello meu povo!
Quando o assunto é autor favorito, existe um nome que não sai do meu top um. Sidney Sheldon foi o primeiro escritor pelo qual me apaixonei, foi através de uma de suas histórias que descobri minha obsessão pela leitura e por isso, o tenho na mais alta conta. E apesar disso, o passar implacável dos anos me levou a negligenciar suas obras. Sempre sonhei em ler/ter tudo do Sidney, mas por estar sempre atenta as novidades acabei me perdendo de alguns objetivos antigos. Contudo, estou determinada a resgatar alguns projetos que deixei pra trás, e isso nos trás ao post de hoje. A outra face, vencedor do prêmio Edgard Allan Poe na categoria romance de estreia e romance do ano, foi publicado na década de setenta e é o responsável por apresentar ao mundo um dos maiores escritores de suspense de todos os tempos.

A Outra Face (The Naked Face)
Autor (a): Sidney Sheldon
Publicação: Record 
ISBN: 9788501094360 | Skoob
Gênero: Suspense
Ano: 2011
Páginas: 239
Minha avaliação: 3/5★
A outra face é um thriller psicologicamente intenso. Vencedor do Edgar Allan Poe, um dos mais importantes prêmios para escritores de mistério e suspense, o livro conta a história de Judd Stevens. Psicanalista bem sucedido, ele se vê subitamente imerso numa rede de intrigas que pode lhe custar a liberdade... e a vida. Duas pessoas de seu circulo pessoal foram assassinadas. Terá sido obra de algum de seus pacientes? Talvez um neurótico movido por uma louca compulsão? Entre os suspeitos estão uma atriz decadente e ninfomaníaca, um pai de família com tendências homossexuais, um empresário problemático, uma jovem misteriosa e, por que não, até mesmo o próprio Dr. Stevens... Se não conseguir penetrar na mente deste perigoso assassino, o psicanalista pode ser preso. Ou, algo ainda mais aterrador, ele pode ser a próxima vítima. Antes que o assassino volte a atacar, Dr. Stevens precisa revelar sua identidade e expor suas emoções, medos e desejos.
Li este livro pela primeira vez há vários anos, tantos que, durante esta releitura, parecia que eu o estava lendo pela primeira vez. Foi incrível poder me surpreender novamente com cada descoberta. Mas além das boas surpresas, pude perceber algumas problemáticas na narrativa que não me chamaram tanto a atenção durante a primeira leitura. O Tenente McGreavy, responsável pela investigação dos assassinatos, protagoniza pelo menos meia dúzia de falas homofóbicas e racistas, e estas surgem no texto sem muito propósito, além de claramente retratar o cenário preconceituoso no qual a história se desenrola e de destacar a personalidade tosca do policial, além disso, Judd faz um mal julgamento de valor, que está diretamente ligado ao fato da vítima de seu escrutínio ser gordo, e por fim, uma das questões que mais me incomodou, foi o fato de um dos pacientes do psicanalista, estar se tratando com ele em busca da "cura gay", e não apenas isso, durante a história afirma-se que o dito cujo alcançou seu objetivo e após ser "curado da sua homossexualidade" está novamente apto para coabitar com seus familiares (esposa e filhos), tirando esta última questão, nenhuma das demais é romantizada, mas tão pouco problematizada de fato. Óbvio que levei em conta a época em que o livro foi escrito e como essas questões eram vistas, mesmo assim finalizei a leitura com sérias dúvidas quanto ao real posicionamento do autor, inclusive é algo que pretendo pesquisar mais a fundo.

Após perder a esposa grávida em um trágico acidente, dr. Judd Stevens buscou refúgio no trabalho, e sua dedicação o tornou um dos melhores no ramo da psicanálise. Detentor de um enorme senso de honra, ele desfruta de uma vida calma e virtuosa, até um de seus pacientes ser assassinado em um local próximo ao seu consultório. Isso o coloca na mira do Tenente McGreavy, um policial arrogante com quem possui questões pendentes. Quando sua secretária, Carol Roberts, é também brutalmente assassina, ele passa a ser visto como um dos principais suspeitos de ter cometido esses crimes absurdos. Desesperado para provar sua inocência Judd começa uma corrida contra o tempo, sua busca por provas no entanto lhe mostrará que não é apenas a sua liberdade que está em risco.

De modo geral não temos aqui um enredo muito complexo, duas pessoas diretamente ligadas ao o dr. Stevens foram mortas, e como não parece haver nenhuma motivação plausível que justifique tais crimes, Judd passa a ser visto como peça importante para a elucidação desses assassinatos. Isso porque, além da proximidade que ele mantinha com as vítimas, o Tenente responsável pela investigação, obcecado com uma rixa antiga, vê nesta situação sua oportunidade de vingança. As acusações iniciais não possuem bases muito sólidas e por isso é fácil perceber que McGreavy está sendo movido pela inimizade que dedica ao protagonista, confesso que peguei ranço do investigador, e passei boa parte da leitura o considerando um incompetente e mal caráter. Óbvio que ele tinha lá seus motivos para nutrir certa animosidade pelo doutor, mas nada que justificasse uma perseguição tão descabida. Mas sendo este um mistério clássico, algumas peças importantes só nos são reveladas perto do fim e com isso, podemos entender melhor a postura do policial. 

No que diz respeito ao mistério, na maior parte do tempo não contamos com informações realmente válidas, e somos obrigados a acompanhar Judd Stevens correndo em círculos e sofrendo todo tipo de ataque, ao mesmo tempo em que suas suspeitas são quase que totalmente invalidadas por aqueles a quem ele recorre em busca de ajuda, levando-o a questionar sua própria sanidade. Esse conflito é bem interessante de se acompanhar, uma vez que o psicanalista se coloca no lugar de paciente e se auto avalia de forma honesta e desprendida, e mesmo quanto tudo depõe em seu desfavor consegue raciocinar com certa lucidez.

A outra face, é deveras interessante. O mistério que envolve as mortes ganha contornos mais densos conforme começamos a desconfiar de tudo e de todos. Os suspeitos óbvios são os pacientes acompanhados pelo dr. Stevens, principalmente aqueles que além de um distúrbio evidente, possuem um histórico violento e preocupante. Contudo, quando o próprio protagonista começa a questionar sua sanidade, nos pegamos duvidando da veracidade de vários fatos que nos são apresentados ao longo da trama. As indagações surgem numa velocidade surreal, mas as migalhas que nos são ofertadas durante a leitura são insuficientes pra montarmos teorias realmente dignas. Isso se confirma quando tudo é revelado, de fato não há como desconfiarmos da real situação, em parte porque os sinais são muitos vagos, quase inúteis em sua maioria, e em parte porque no final das contas a conclusão de todo esse imbróglio é meio absurda. Considero positivo, o fato do autor ter explorado as habilidades de psicanálise do doutor como meio de chegar ao verdadeiro assassino, foi incrível acompanhá-lo ponderando minuciosamente as situações e traçando perfis a partir das ações do criminoso. E da mesma forma que a narrativa ágil deve ser devidamente elogiada, não posso deixar de reiterar o incômodo que senti ao me deparar com diálogos e posicionamentos que claramente refletem homofobia, racismo, machismo e gordofobia. Embora eu tenha conseguido, pelo menos em parte, levar em consideração o fato desta história ter sido escrita há mais de cinquenta anos, acredito que estas abordagens podem ser vistas de forma menos flexível por outros leitores. Em suma, esta não é uma leitura perfeita, mas é inegavelmente digna de todo o reconhecimento que lhe foi dedicada. 

6 comentários

  1. Oi Delmara!

    Eu li este livro no ano passado e como você não foi uma leitura perfeita, mas não tem como negar que contém um suspense incrível. A Outra Face é o primeiro livro que leio do autor e alguns temas eu também levei em conta que a história foi escrita em outra época. Até estou com mais dois livros para ler este ano. Parabéns pela resenha.

    Bjos

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    1. Este não é sobre hipótese alguma o melhor livro dele. Se tiver a oportunidade de ler, leia "Se houver amanhã" e "Nada dura para sempre", são as histórias dele que eu mais amo.

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  2. Oi Delmara!
    Assim como você, admiro a escrita de Sidney Sheldon e li a muitos anos atrás alguns de seus livros. Como colocou o livro foi escrito a muitos anos atrás, mas tem várias pretensões em discriminação, já tinha percebido tbm em alguns que li. Deixando de lado um pouco isso, sua escrita é fantástica e envolvente, esse livro ainda não li, mas vou colocar na minha lista, pois bateu a curiosidade de saber mais e desvendar quem é o criminoso, obrigada pela dica, parabéns pela resenha. Bjs!

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  3. Oi, Delmara!
    Acredita que nunca li Sidney Sheldon? Eu acho que até tentei uma vez, mas não deu liga. Quero tentar novamente um dia, e vou anotar a indicação desse livro como referência para começar, já que a trama me chamou a atenção.
    bjos
    Lucy - Por essas páginas

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  4. Oie, tudo bem? Sempre fico contente quando vejo alguém indicando os livros do Sidney Sheldon. Comecei a ler o autor quando tinha uns 13/14 anos e desde então já li vários. Um dos meus favoritos é Se houver amanhã. Já perdi a conta de quantas vezes li. Uns anos atrás comprei uma versão de "bolso" que vem com dois livros no mesmo exemplar. Tadinho, está tão amarelo parece que é do século passado haha Me lembra os livros da Agatha Christie. Aqui no Brasil também foi lançada uma coleção de bolso, que eram vendidos nas bancas se não me engano. Preciso perguntar pra minha mãe. O que mais gosto na escrita do autor é a dinâmica. Ele consegue nos envolver de uma maneira, poderia dizer que é até melhor do que o Harlan. Um abraço, Érika =^.^=

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  5. Oi, Del! Tudo bem?
    Eu não li nada do autor ainda, mas tenho alguns dele aqui e quero ler esse ano. Achei a premissa desse muito interessante e fiquei curiosa. Mas esses diálogos que refletem homofobia, machismo, racismo e gordofobia me incomodariam muito, mesmo levando em consideração que foi escrito há muito tempo. Ainda quero ler, mas acho que vou diminuir as minhas expectativas. De qualquer forma, adorei a sua resenha e conhecer a sua opinião sobre o livro.
    Beijos

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