4 de novembro de 2019

[Resenha] A Filha do Rei do Pântano - Karen Dionne

Olá pessoas!
Hoje vamos falar sobre uma das minhas últimas leituras, um triller sombrio que mexeu muito comigo. A filha do Rei do Pântano foi publicado ano passado pela TAG inéditos, e esse ano ganhou uma nova edição pela Verus editora. Apesar de sua disponibilidade prévia, só agora eu tive meu primeiro contato com o livro, diante disto, eu definitivamente iniciei essa leitura as cegas, e confesso que não esperava muito dessa história, claro que tendo em mente as informações disponíveis da sinopse, me preparei para sentir um certo incômodo com o desenrolar da trama, mas o que encontrei aqui vai muito além disso. Karen Dionne, descreve um cenário revoltante e desolador, e nos apresenta á um homem sádico, cruel e assustadoramente perigoso que usa e abusa do seu poder de manipulação. Em contra partida a autora nos faz enxergar através dos olhos de uma das suas principais vítimas. O resultado disso, é uma miríade incomensurável de sentimentos, sensações e interpretações. 

A Filha do Rei do Pântano (The Marsh King's Daughter)
Autor (a): Karen Dionne @KarenDionne
Publicação: Verus *Cortesia
ISBN: 9788576867791 | Skoob
Gênero: Suspense
Ano: 2019
Páginas: 266
Minha avaliação: 4/5★
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Helena Pelletier tem um marido amoroso, duas filhas lindas e um negócio que preenche seus dias. Mas ela também tem um segredo: é fruto de um sequestro. Sua mãe foi raptada quando adolescente por seu pai e mantida em uma cabana nos pântanos do Michigan. Nascida dois anos depois do sequestro, Helena amava sua casa na natureza e, apesar do comportamento às vezes brutal do pai, ela o amava também... Até perceber o quão selvagem ele poderia ser. Vinte anos depois, ela já enterrou seu passado tão profundamente que até o marido não sabe a verdade. Mas agora seu pai matou dois guardas, escapou da prisão e desapareceu. A polícia começa uma caçada, e Helena sabe que não irão descobrir nada, pois apenas uma pessoa, treinada por ele mesmo, tem as habilidades para encontrar o sobrevivente que o mundo chama de Rei do Pântano. E essa pessoa, claro, é Helena.
Eu definitivamente não esperava ser arrebatada por esta trama. A princípio considerei a proposta perturbadora porém interessante, mas conforme a narrativa avançava me vi embolada em um sem número de impressões que mudavam rapidamente a cada novo capítulo. Uma adolescente sequestrada e mantida cativa em uma cabana num pântano durante doze anos, é o tipo de situação que deixa qualquer um revoltado, e comigo não foi diferente. Mesmo nesta história onde não temos o ponto de vista da vítima, é possível ter uma noção clara do cenário pavoroso ao qual ela foi submetida. No entanto, eu estava ansiosa para ver através dos olhos de Helena. Como uma criança, fruto de uma "união" forçada, se desenvolve em um ambiente isolado, tendo ao seu lado apenas um abusador e sua vítima? E se me permitem ser honesta, Helena me alarmou de diversas formas durante toda a leitura.

Helena cresceu em uma cabana em meio ao pântano, tendo como companhia apenas seus pais. Jacob, lhe ensinou tudo o que uma criança nativo americana deve saber para sobreviver longe da civilização. Ele costumava ser o herói de Helena, ela só não sabia que seu pai estava longe de corresponder suas expectativas. A garotinha, não fazia ideia que seu pai era na verdade um sádico que sequestrou sua mãe e a manteve cativa e aterrorizada durante anos. Quando a verdade vem a tona, a menina se obriga a abandonar tudo o que conhece e finalmente descobrir um mundo além do pântano. Quinze anos depois, Helena acredita ter deixado para trás sua infância atípica e toda a repercussão que ser a filha do rei do pântano lhe proporcionou. Casada e mãe de duas filhas, leva uma vida relativamente comum, mas quando seu pai foge da prisão deixando um rastro de mortes que levam diretamente a ela, Helena vê seu passado aterrador retornar para lhe assombrar, ameaçando tudo o que construiu. Decidida a manter sua família segura, Helena se lança em uma caçada calculada, onde usará todas as suas habilidades e não poupará esforços para capturar o Rei do Pântano, seu próprio pai.

A mãe de Helena, pouco tinha a oferecer a filha, uma jovem inexperiente e oprimida que sequer tinha forças para suportar os abusos dos quais era vítima, não conseguiu ser para a garota a figura materna que ela precisava, o que possibilitou ao pai, um homem cruel e controlador moldar a menina segundo seu desejo. E Jacob se esmerou na educação deturpada que dedicou a filha. A menina aprendeu tudo o que foi possível sobre a vida no pântano, caçar era para ela muito mais que uma necessidade, era uma diversão, uma espécie de jogo entre pai e filha. Helena sabia melhor que muito homem adulto, quando atirar em uma caça e o que fazer para aproveitar ao máximo possível as provisões que ela lhe proporcionaria, tinha plena consciência do que esperar da fauna e da flora, e com sua mente aguçada mais de uma vez superou seu pai em seus próprios desafios. Os ensinamentos de Jacob despertavam em Helena uma euforia que ela não desejava conter, para ela o pai era sinônimo de conhecimento e liberdade, enquanto a mãe representava a inércia. O desprezo que garota passou a nutrir pela matriarca por si só já é bem difícil de digerir, e a forma natural com a qual ele surgiu acentua ainda mais o enorme incômodo que se abateu sobre mim.

A influência que Jacob exerce sobre a filha é algo tão enraizado que mesmo depois de tantos anos, Helena ainda se mostra saudosa a vida que levava no pântano. Ela tem plena consciência das atrocidades cometidas pelo homem, possui uma vida estável e tranquila, e mesmo assim sua ligação com o passado parece inquebrável. Ouso dizer que este apego, embora ela negue, é alimentado incansavelmente por ela própria. Talvez devido a necessidade de conservar a adoração ignorante que ela sempre nutriu pelo pai. Mesmo quando demonstra uma sutil solidariedade por todo o mal que foi infligido a mãe, Helena não se priva de tentar justificar e por vezes atenuar as barbaridades realizadas pelo pai. Como a história é contada em primeira pessoa, apenas do ponto de vista de Helena, uma série de informações se perde pelo caminho, e só nos resta vislumbrar as suposições pouco embasadas que a filha de um homem cruel faz de suas ações, e se quer saber, a jovem faz uma análise tendenciosa e preocupante que me fez questionar seu caráter e suas inclinações.

A filha do rei do pântano, é perturbador. Uma trama pouco dinâmica, narrada em dois tempos (passado e presente), que nos permite conhecer a fundo a filha de um sádico. Helena teve uma infância incomum, e isso teve uma influência gigantesca em sua formação pessoal e social. Suas preferências, estão intimamente ligadas a uma rotina que lhe foi imposta quando ainda vivia no pântano. Além disso, ela precisa lidar com o enorme conflito que é ter que odiar o homem que ela mais amou na vida. Apesar deste não ser um triller aterrorizante, aborda algumas questões psicológicas e apresenta de forma crua e evidente cenas difíceis de digerir. Karen Dionne, trás uma escrita descritiva que facilita o processo de imersão do leitor, o que torna possível nos sentirmos parte do cenário pantanoso, dessa forma a claustrofobia de se estar cativo em situações tão precárias, se torna quase palpável. Apesar disso, não nego que em alguns momentos o excesso de informações se torna massante e pouco atraente. O desfecho de tirar o fôlego, trás dinâmica suficiente para compensar a inércia que domina a maior parte do enredo. De modo geral, trata-se de uma história bem elaborada que vale a leitura.

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