4 de junho de 2018

[Resenha] O idiota - Fiódor Dostoiévski por André Diniz

Olá personas!
Li esse livro assim que ele chegou aqui em casa a várias semanas atrás, mas ainda não tinha tido coragem de sentar para falar a respeito dele aqui. Confesso que andei procrastinando pelo simples fato de não saber como escrever a resenha desse livro e pra ser sincera ainda não sei. Decidi pelo menos tentar colocar pra fora o que for possível, embora não saiba se o resultado final será satisfatório, tenho em mente de que mais uma vez darei o meu melhor. O idiota é uma das obras de maior destaque de Fiódor Dostoiévski, considerado um dos grandes escritores da história da literatura mundial e responsável pela publicação de grandes sucessos como Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov. Pelas mãos de André Diniz esse clássico renomado ganha uma versão ousada, onde o artista reconta uma história complexa através de ilustrações expressivas que respaldam o texto conciso porém enfático. 

O idiota
Autor (a): André Diniz @AndréDiniz
Publicação: Quadrinhos na Cia *Cortesia
ISBN: 9788535930726 | Skoob
Gênero: HQ
Ano: 2018
Páginas: 416
Minha avaliação: 4/5★
Em preto e branco, e num registro quase sem palavras, André Diniz propõe uma recriação surpreendente de O idiota, obra máxima de Fiódor Dostoiévski. Publicado em 1869 e escrito em meio a crises epilépticas e perturbações nervosas e sob a pressão de severas dívidas de jogo, o romance é um dos mais célebres da literatura mundial. Sua oralidade intensa encontra na explosão e na fluidez, na ternura e na enorme capacidade expressiva do traço de Diniz, uma correspondência única. A história é conhecida: após anos internado num sanatório suíço para tratar sua epilepsia, o jovem Míchkin retorna à Rússia e se vê envolvido num triângulo amoroso cujos ares folhetinescos darão o tom desta adaptação. Entre a vilania de Rogójin, um devasso perdulário que dilapida a fortuna herdada de seu pai, e a beleza arrebatadora de Nastácia Filíppovna, acompanharemos Míchkin e sua pureza quixotesca até o desenlace desta bela e trágica graphic novel.
Já de antemão quero deixar registrado que não conheço a obra integral que baseia essa HQ, embora sempre tenha tido uma certa curiosidade pelos escritos do autor, que são sempre tão bem avaliados, ainda não havia tido chance de ter algo do tipo em mãos. Sendo assim quando a oportunidade de ler essa adaptação surgiu, decidi agarrá-la com as duas mãos, confesso que desde o primeiro instante tive receio de não conseguir absorver tudo o que a obra poderia proporcionar, mas de que valem as oportunidades se nós não a aproveitarmos não é mesmo? No final das contas não poderia ter ficado mais satisfeita com a experiência que tive durante essa leitura. A narrativa de Dostoiévski ilustrada pela arte de Diniz formam um combo magnífico que merece ser lido e apreciado.

Com o intuito de tratar sua epilepsia, Liev Míchkin viveu vários anos em um sanatório suíço. Porém, sem qualquer evolução do quadro e com a morte de seu tutor ele retorna a Rússia a procura de Lisavieta Epántchin, sua única parente ainda viva. No entanto, ao regressar ao seu país de origem Míchkin se vê envolvido em um triângulo amoroso. Todos parecem se render a beleza de Nastácia Filíppovna, mas para Míchkin a jovem debochada e muitas vezes sem escrúpulos vai além do que se pode ver na superfície. Nessa nova vida desafiadora o rapaz ainda precisa lidar com a obsessão que Parfion Rogójin alimenta em relação a Nastácia, e embora Míchkin seja considerado um bobo, por sua inocência e bondade, ele não se privará de lutar por aquela que despertou sentimentos profundos em si. Entre dores e amores Míchkin será envolvido por uma teia pegajosa de mentiras, medo e interesse, da qual não conseguirá sair até que seja tarde demais.

Quando iniciei esta leitura não imaginei que teria meus conceitos e preconceitos derrubados tão fácil e rapidamente, a verdade é que a primeira vista não consegui perceber a profundidade dos personagens desta história, contudo com o desenrolar do enredo torna-se impossível negar as incontáveis camadas que os rodeiam. Liev é diferente de tudo que já li até o momento, detentor de uma sensibilidade comovente o rapaz consegue perceber as dores mais profundas que Nastácia guarda dentro de si. Mesmo assim eu o tomei como o bobo que todos o julgam ser, e acreditei que em sua ausência de malícia ele estivesse enganado, agora imaginem minha surpresa ao constatar que eu com toda minha perspicácia não notei o que pra ele parecia tão nítido. De fato Nastácia se mostra uma pessoa indiferente e adepta do escárnio, porém quando se conhece mais a fundo sua história é possível entender que esta armadura que ela costuma vestir reflete muito pouco da vulnerabilidade que ela realmente apresenta.

Em uma obra onde se é possível ler muito mais que palavras, André Diniz nos presenteia com um traço marcante que arremete a nossa literatura de cordel. Devido a riqueza de detalhes, não é preciso uma análise muito extensa para se decifrar expressões e ambientes, onde as ilustrações e o escasso texto conversam entre si e juntos transmitem ao leitor uma mensagem secular e factual.


O idiota, é um clássico russo de séculos atrás que ainda hoje se faz atual. As abordagens de Dostoiévski são certeiras e levantam questões delicadas, tais como abuso sexual e relacionamento abusivo, que justificam o furor causado por suas obras na época de publicação. Essa versão ainda ganha qualidade extra por contar com os traços reveladores de Diniz, onde nem mesmo a quase ausência de palavras nos deixa alheios a tudo o que ocorre na trama. O desfecho dramático desperta uma série de questionamentos, bem como sentimentos incômodos. Apesar da tragédia anunciada (essa informação consta na contra capa), me peguei alimentando a esperança de que no final das contas tudo ocorresse da melhor forma possível, porém no fim de tudo o que fica é aquele sabor amargo na boca e uma infinidade de pontos a se refletir, com o propósito de pelo menos tentar compreender as curvas erradas que tomamos durante essa nossa longa jornada.

10 comentários

  1. Oi! Também nunca li nada de Dostoiévski, embora tenha um exemplar de Os irmãos Karamazov. Fiquei nesse sentimento de será que eu iria conseguir absorver tudo na leitura. Este livro eu não conhecia e pelo visto parece ser bem profundo e cheio de temas pertinentes. Gosto da ideia de se contar a história através das ilustrações, acho que deixa ainda mais espaço pra nossas interpretações. As linhas são mesmo parecidas com as do nosso cordel. Obrigada pela dica!


    Bjoxx ~ www.stalker-literaria.com

    ResponderExcluir
  2. Eu nao conhecia essa versao em quadrinhos e achei de uma fofura sem tamanho! Certamente é uma maneira diferente de se introduzir nos classicos, ne? Adorei as imagens postadas porque de certo modo já mostram o que podemos esperar e certamente me agradou muito.

    ResponderExcluir
  3. Olá, tudo bem?

    Ainda não conhecia o livro mas pelo o que eu li ele parece ser bem intenso. Gostaria de saber, onde posso encontrar o livro para compra-ló?

    www.resenhasetudomaisbr.blogspot.com

    ResponderExcluir
  4. Oi.

    Eu ainda não li da do Dostoiévski, mas tenho muito interesse, inclusive já tenho alguns em ebook para serem lidos. Eu fi o anúncio dessa HQ, fiquei curiosa e acho importante que tenha uma edição em quadrinhos para uma história tão complexa, de um autor complexo. Acho acessível. Gostei bastante da sua resenha, mas acho que vou preferir ler antes a obra completa (e depois ler a HQ).

    beijos! <3

    ResponderExcluir
  5. Oi, Del.
    Confesso que ainda não sei muito bem o que pensar sobre essa HQ.
    O trabalho parece incrível e fiquei impressionada com a sua reação emocional a ela, mas fico na dúvida se seria ou não o tipo de leitura que eu curto. Acho que vou passar numa livraria, pegar ele nas mãos e dar uma lidinha nas primeiras páginas. Se eu não conseguir mais largar, então corro para o caixa e levo o livro para casa comigo!! Rs...
    Beijos
    Camis - blog Leitora Compulsiva

    ResponderExcluir
  6. Oi, Delmara. Tudo bem?
    Confesso que não sou acostumado a ler HQ, mas quando comecei a ler e vi que era uma adaptação de uma história de Dostoiévski, fiquei mais animando para conhecer a história. Eu ainda não tive a oportunidade de ler nada do Dostoiévski, mas já li comentários sobre as obras deles e me interessa muito.
    Uma das coisa que mais me chamou a atenção nessa adaptação do Diniz é a questão da complexidade dos personagens. Adoro personagens que emanam complexidade. Só isso já me manteve animando para ler. Além disso, gostei também de saber que a história tem um fim dramático, eu me identifico muito com livro assim, pois nos dá a oportunidade de refletir sobre a vida.
    Adorei conhecer essa adaptação e agora fiquei mais animado para conhecer mais sobre as obras de Dostoiévski. Obrigado pela dica. Essa é uma HQ que eu vislumbro ter a oportunidade de ler um dia.

    Abraço!

    meuniversolb.wixsite.com/meuniverso

    ResponderExcluir
  7. Amei a resenha!

    Sou uma leitora de clássicos, mas ainda não tivesse a chance de ler nada do autor. E o que não falta é vontade! Tenho dele Crime e Castigo e pretendo ler em breve, será minha primeira experiência com a escrita dele. Já o Idiota eu comprarei depois se apreciar o trabalho do autor. Será o texto integral. Prefiro ler da maneira tradicional e só depois talvez dar uma chance a HQ.

    E eu amo livros que nos façam refletir, que nos causem aquela sensação de que era inaceitável, que poderia ter sido diferente, que as coisas deviam ter ocorrido de tal maneira... que os caminhos da vida são imprevisíveis e nossas ações podem provocar consequências sérias... Enfim... Gosto de histórias assim.

    ResponderExcluir
  8. Olá!
    Não conhecia esse livro, mas gostei da abordagem e por trazer um personagem com uma condição diferente de vida. Fiquei com a impressão de uma leitura rica em detalhes e muito bem elaborada que me agradaria conhecer.
    Beijos!

    Camila de Moraes

    ResponderExcluir
  9. Oi Delmara,
    Adorei a sua resenha. Essas adaptações em HQ são ótimas para conhecermos obras clássicas que normalmente tem um texto mais denso. Dica anotada.
    Com amor, André
    Garotos Perdidos

    ResponderExcluir
  10. Confesso que não sou acostumada a ler esse tipo de história mais tenho que dizer que sua resenha me deixou com vontade de conhecer. Acho que o que chamou mais minha atenção foi as características dos personagens que você bem pontuou durante a resenha. Saber que nem tudo é o que parece e que no final ficamos bem reflexivos é algo muito bom, mesmo o livro deixando um sabor amargo na gente. Enfim, curti demais.

    Beijos
    http://ventoliterario.blogspot.com

    ResponderExcluir