2 de novembro de 2017

[Resenha] Suicidas - Raphael Montes

Olá queridos!
Eis que eu estou de volta com mais uma obra magnífica do autor nacional Raphel Montes. Suicidas é o livro de estréia do autor e é a obra que o firmou como o principal nome do novo suspense nacional. Este título já havia sido publicado a uns três anos atrás pela editora Benvirá, mas esse ano ganhou uma segunda edição (essa lindeza da foto logo abaixo) pela Companhia das letras, editora responsável pela publicação de quatro das sete obras que levam o nome do escritor.

Suicidas
Autor (a): Raphael Montes @montesraphael
Publicação: Companhia das letras *Cortesia
ISBN: 9788535929447 | Skoob
Gênero: Suspense +18
Ano: 2017
Páginas: 432
Avaliação: 4/5★
Antes que o mundo pudesse sonhar com o terrível jogo da baleia azul, que leva jovens a tirar a própria vida, ou que a série de televisão 13 Reasons Why fosse lançada e se tornasse o sucesso que é hoje, Raphael Montes, então com 22 anos,já tratava do tema do suicídio entre jovens, com a ousadia que virou sua marca registrada. Em seu primeiro livro, que a Companhia das Letras agora relança acrescido de um novo capítulo, conhecemos a história de Alê e seus colegas, jovens da elite carioca encontrados mortos no porão do sítio de um deles em condições misteriosas que indicam que os nove amigos participaram de um perigoso e fatídico jogo de roleta russa. Aos que ficaram, resta tentar descobrir o que teria levado aqueles adolescentes, aparentemente felizes e privilegiados, a tirar a própria vida. Para isso, contamos com os escritos deixados por Alê, um narrador nada confiável.
Desde o inicio da minha vida literária tenho aderido a leitura de alguns estilos com mais empenho que a outros, e o suspense está dentro dos que me fascinam por isso costumo lê-lo com certa frequência, no entanto já faz muito tempo que mesmo dentro do gênero eu não encontro obras tão cruas e inteligentes como a desse autor. Esse é o segundo livro do Raphael que leio e conhecê-lo confirmou a impressão inicial que obtive quando li Jantar secreto, sem sombra de dúvidas a narrativa de Montes é perturbadora por sua clareza e minuciosidade. E esta é mais uma obra que fisga e aprisiona, desde o prólogo mesmo com os altos e baixos encontrados no decorrer da trama é possível imprimir um ritmo de leitura satisfatório, alimentado pela ansiedade de descobrir o real mistério que se esconde em um enredo bem amarrado. Mais uma vez me deparo com uma trama que retrata até que ponto o ser humano é capaz de chegar quando ultrapassa os limites básicos necessários para a coexistência, mostra o quão rápido uma pessoa pode se perder na insanidade a depender do estímulo e da situação emocional em que se encontre e descreve o quão ardiloso pode ser aquele que se deixa levar pela ambição.

Alessandro é um rapaz de opiniões e propósitos bem definidos, desde muito cedo ele soube que queria tornar-se escritor e apesar de não contar com qualquer apoio familiar ou editorial, ele não consegue abandonar o desejo de ter suas histórias lidas pelo maior número de pessoas possível, em paralelo a isso ele leva uma vida bem comum, e embora não seja muito sociável o estudante de direito possui uma amizade de loga data com Zack, um jovem privilegiado que sempre teve tudo que o dinheiro é capaz de comprar e que diferente de Alê vive como se não houvesse amanhã. As personalidades distintas dos dois amigos não parece gerar nenhum grande problema entre eles, ao contrário disso eles se aceitam como são, cada um com suas características e limitações. Quando os pais de Zack morrem em um "acidente", o mundo perfeitinho que ele conhece desmorona por completo, e é desse caos que surge a proposta para um suicídio coletivo. Alê e Zack possuem um grupo de "amigos" em comum que aceitam participar de uma roleta russa, que inicialmente resultará na morte de pelo menos oito deles, uns têm motivos bem estabelecidos, outros no entanto parecem deslocados no meio de toda essa loucura, sem razões claras ou subtendidas para quererem interromper a própria vida. Um ano após a ideia dos jovens ter se concretizado ainda restam muitas dúvidas a serem esclarecidas, o que aconteceu de fato no porão onde nove corpos foram encontrados? O que levou esses jovens aparentemente bem estabelecidos a suicidar-se? Tendo como base as anotações realizadas por Alê, que registrou tudo que pôde sobre os acontecimentos daquele dia fatídico uma nova linha de investigação se apresenta e novos indícios se revelam.

O título e a sinopse criam a ilusão de que vamos iniciar a leitura cientes do que se passa na história, afinal nove jovens foram encontrados mortos em um porão e tudo indica que eles participaram do jogo suicida denominado roleta russa,  para quem não sabe (se é que existe alguém no mundo que não conhece) segundo o dr. google "consiste em deixar uma só bala no tambor de um revólver, fazê-lo girar, apontar o cano da arma para si próprio ou para outrem, sem conhecer a posição exata da bala, e apertar o gatilho"¹ . Mas ainda no começo da trama essa crença cai por terra, recolher as pistas deixadas através de três sequências narrativas (antes, durante e depois) torna perceptível a existência de algumas pontas soltas que põem em xeque a veracidade dos fatos, primeiro porque não existem testemunhas oculares dos acontecimentos que resultaram na morte dos nove amigos e segundo porque a maioria das informações tidas como base se originam das anotações de Alessandro, que notadamente possui um caráter questionável.

As três sequências que citei anteriormente funcionam como um quebra cabeças, que além de alicerçar a investigação policial direcionam o leitor e servem como base para divagações próprias. Na primeira (antes), temos as anotações que o Alê realizava em uma espécie de diário, é aqui que conhecemos os outros oito participantes da roleta russa, pela perspectiva tendenciosa do aspirante a escritor, entendemos até que ponto os jovens estavam envolvidos e como funcionava a ligação que os levaram até aquele porão. As informações são dispostas de forma fragmentada e não seguem uma ordem cronológica, o que não chega a atrapalhar a leitura, pois sua aleatoriedade termina ai, e além disso o fato de termos acesso a uma narrativa realizada em absoluto através do ponto de vista do Alê nos da uma ideia clara da personalidade deturpada desse personagem, que quando visto além da fachada de universitário estudioso e filho exemplar se mostra intolerante e cheio de preconceitos, não existem pudores em suas descrições, ele deixa claro seus conceitos defasados com uma naturalidade que assusta e incomoda. A segunda (depois), ocorre um ano após a roleta russa. A delegada responsável pela investigação do caso realiza uma reunião com as mães dos jovens envolvidos no jogo, com intuito de revelar uma nova pista que pode vir a esclarecer o porque dessa tragédia ter ocorrido e descreve em detalhes grande parte dos acontecimentos que ocorreram dentro do porão. A terceira e última (durante) se encaixa dentro da segunda, e trata-se do livro (a tal prova supracitada) que o Alê escreveu enquanto estava confinado no porão com os demais jovens, sem sobra de dúvidas a narrativa desta sequência  pode ser considerada a mais insana e intensa de toda a trama. 

"Espero sinceramente que você tenha se divertido até agora. É uma pena saber que este vai ser o único livro meu que vai poder ler. Não vou escrever outros. Ainda assim, espero que tenha cumprido meu objetivo. Agora vou pegar a arma e atirar na minha cabeça."

Os fatos que precedem e sucedem as mortes bem como elas próprias são descritas de forma crua, detalhada e sem reservas. Uma característica da escrita do autor  que choca e a qual eu aprendi a admirar, a maestria que ele dispõe para desenvolver cenas bizarras que não soam forçadas ou fora de lugar é um dos vários pontos que me fazem apreciar suas obras. Apesar de claramente ter gostado bastante do conjunto geral da obra quero destacar algumas situações que em algum momento me incomodaram durante a leitura, a primeira ocorre na segunda sequência, admito que esta foi a que menos gostei dentre as três, entendo sua relevância para o desenvolvimento da trama mas a forma que foi trabalhada tornou os diálogos e eventos descritos pouco críveis e por vezes até forçados, outra questão que afeta a credibilidade do texto, que embora ficcional soa bem realista durante quase toda a narrativa, é a ausência de motivação plausível para que os jovens optassem por participar da roleta russa, creio eu que ninguém decide se matar por nada, né? Algumas justificadas são explanadas de forma superficial mas a maioria fica em suspenso, simplesmente não se falou a respeito. Por ser um assunto sério talvez o autor não tenha se aprofundado nas motivações para não criar "gatilhos" ou algo do tipo, não consigo encontrar outra justificativa já que a escrita dele é sempre tão completa e tudo costuma se encaixar perfeitamente, outra razão que pode justificar "falhas" tao evidentes é o fato dessa ser sua obra de estréia. 

Suicidas, incontestavelmente possui uma escrita clara e direta que facilita e agiliza o ritmo da leitura. Uma trama que choca por abordar temas pesados como necrofilia, abuso sexual, tortura e etc. Tais abordagens são acentuadas pela descrição detalhada que deixa muito pouco ou quase nada a imaginação, que por sua vez pode ser considerado característica constante da escrita do autor. Montes trás a tona uma natureza diabólica e uma face cruel da capacidade negativa da natureza humana. De forma inteligente o autor brinca com os limites impostos pela sociedade e revela sem pudor o que que acontece quando a moral, o respeito por si próprio e pelo próximo são postos de lado em prol da ambição e de um ego super inflado. O desfecho não pode ser previsto em sua totalidade, mesmo quando se capta as dicas deixadas pelo caminho, conta com um plot twist que se apresenta de forma estarrecedora e se desenvolve com uma engenhosidade admirável. Embora tenham restado algumas lacunas que poderiam ter sido melhor trabalhadas, o conjunto geral é sensacional, perturbador e viciante. Super recomendo para os amantes do gênero que não se abalam facilmente com descrições explicitas.  

1. Definição de roleta russa encontrada no google

16 comentários

  1. Oi, Delmara! Tudo bem?
    Eu não li ainda esse livro, mas uma amiga leu e achou muito, muito bom. Ela mencionou realmente que tem algumas descrições que são de causar arrepios e confesso que estou bem curiosa. Pela sua resenha, apesar das ressalvas, vale muito a pena ler, e eu pretendo ler, espero que em breve.
    bjs
    Lucy
    Por essas páginas

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  2. Olá Delmara,
    Já li dois livros do autor - o Vilarejo e Jantar Secreto. O primeiro não me agradou em quase nada, mas o segundo entrou para meus favoritos da vida por abordar temas complexos com uma mestria sem tamanho.
    Suicidas está na lista há bastante tempo e fiquei muito feliz lendo sua resenha, pois pude perceber que é um livro real que não romantiza histórias para ficar bonito para o leitor.
    Espero que a oportunidade de ler surja em breve.
    Beijos

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  3. Oi Delmara, não vou ler a resenha, pois este livro veio na minha caixa Skoob e quero que a leitura seja uma surpresa, mas dei uma espiadinha no final que fala sobre os assuntos abordados no livro e acho que ele vai ter que passar na frente da minha fila de espera. Quando ler te conto o que achei.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  4. Oiiii,

    Eu já li algumas coisas sobre esse livro, mas não consigo me interessar pela leitura, acho q é mais por conta do estilo mesmo (suspense não é muito a minha), mas a maneira como você descreveu que a leitura te cativou me deixou curiosa pra conhecer a escrita do autor e saber como ele consegue prender o leitor, e como ela faz pra história ser diferente da maioria das coisas que se lê por aí, pra quem curte o gênero realmente deve ser uma leitura bem interessante e foi realmente uma ótima dica.

    Beijinhos...
    http://www.paraisoliterario.com

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  5. Oi.
    Apesar de gostar muito do gênero e ter muita curiosidade em conferir as obras do autor, no momento estou optando por leituras mais leves. Mas é um livro que pretendo ler sim, na verdade, pretendo começar por esse que foi o primeiro livro do autor.
    Adorei a sua resenha e também as ressalvas.
    Beijos.

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  6. A sua resenha está impressionantemente maravilhosa. Eu tenho muita curiosidade de ler algo do Montes em função de críticas como a sua, que me instiga a ler essa narrativa direta, mas ao mesmo tempo, o tema do livro me dá uma certa apreensão, porque não é um gênero que eu tenho muita intimidade. Tenho o livro aqui na estante e vou me desafia r a sair da minha zona de conforto.
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

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  7. Olá, eu ainda não li nada do Rafael, mesmo ele sendo de um gênero que eu não leia de jeito nenhum. Eu estou curiosa para ler esse livro

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  8. Oi Delmara,

    Eu li apenas um livro do autor acredita? Eu não sou tão adepta ao gênero, mas confesso que sempre fico curiosa quando vejo as resenhas dos livros do Raphael. A sua, que está incrível por sinal, me desperto muita vontade de ler. principalmente, porque adoro histórias e abordagens mais cruas, mais honestas. Eu realmente quero ler essa obra logo. :)

    beijos!

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  9. Olaaaaa!!!
    Eu sou uma pessoa que sou completamente alucinada na leitura de suspense, desses livros mais investigativos e que mexem com nosso psicologico. Tenho muita curiosidade de ler algum livro do Raphael, porque ele ta fazendo o nome dele, está crescendo e merece ser reconhecido. Entretanto, sou muito medrosa e ocmo vc contou que determinadas coisas acontecem, é pesado demais pra mim.

    beijos
    Livros & Tal

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  10. Olá, tudo bom?

    É incrível como um autor, em seus 22 anos, consegue escrever uma boa história em sua primeira tentativa. Eu amei a nova edição e já li um livro do Raphael Montes, então sei que o seu tipo de obra não é para todos. Essa é uma leitura que eu estava ansiosa para começar, mas dei um passo para trás e abaixei as minhas expectativas depois de ler a sua resenha.
    É bom lembrar que é a sua primeira obra, então ele conseguiu amadurecer a sua escrita. Entretanto, fiquei chateada pelo autor não ter aprofundado as justificativas, pois era o que eu gostaria de ler sobre. Enfim, ainda quero ler, pois gosto do trabalho dele, mas as expectativas não estão tão altas assim, rs.

    Enfim, adorei a resenha, obrigada pela dica :)
    Abraços.

    https://instantesmemoraveis.blogspot.com.br/

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  11. Oi!
    Não li muito da resenha porque ganhei o livro e estou louca para lê-lo, e só de ver a nota que deu a ele já fiquei bem empolgada em começa-lo em breve.
    O primeiro livro que li do autor me frustou um pouco, espero que esse não aconteça a mesma coisa porque estou bem confiante em lhe dar uma segunda chance

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  12. A escrita do Rapha Montes é mesmo incrível! Assim como você, só tive contato com duas obras dele até o momento (O Vilarejo e Dias Perfeitos) mas me surpreendi positivamente com as duas. Tive a oportunidade de conhecê-lo na feira do livro da minha cidade e posso afirmar que além de talentoso, ele é extremamente atencioso e simpático com os leitores. <3 Pretendo ler todos os outros livros desse moço e te indico a ler O Vilarejo o quanto antes! É de contos, bem rapidinho de ler, mas o trabalho que ele fez foi sensacional! Espero conseguir adquirir Suicidas ou Jantar Secreto na próxima black friday haha

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  13. Adoro as narrativas do Raphael, só não li esse ainda. E pelo que vi aqui, o autor continua trazendo surpresas e chocando o leitor com suas abordagens. Doida pra conferir essa nova engenhosidade.
    Beijos

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  14. Oi, tudo bem? Eu comecei minha vida literária com suspense, terror e fantasia... e isso na adolescência, há quase 30 anos. Hoje ainda, são os gêneros que mais me fascinam. Eu tenho esse livro, mas na capa anterior. Eu devorei ele logo que comprei, e gostei demais da leitura. E confesso que o final me surpreendeu e isso me fascina. Adoro ser pega de surpresa. Ainda não consegui ler os outros livros dele, mas todos estão na lista.

    ;D
    Nelmaliana Oliveira

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  15. Olá. Esse livro é um dos poucos que eu quero ler pois ele não é do meu gênero literário, mas com certeza ele vai me tirar literalmente da minha zona de conforto e isso me deixa curiosa em relação ao livro

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  16. Wow!Que resenha! Bota resenha nisso!
    Gente, foi a melhor resenha que li em anos, não apenas do livro do Raphael, mas em todos os blogs que acompanho tu foi a que me fez ler tudo de forma ansiosa pro final, como se esperasse um desfecho na obra como um livro em si. A maioria do pessoal escreve resenhas enormes sem muito contexto e que não atrai o leitor, mas tu, menina me atraiu até a ultima linha pra ter a vontade enorme de comprar o livro agora. Parabéns!
    http://k-secretmagic.blogspot.com.br/
    Xoxo

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