Entrevista com autor Enéias Tavares

domingo, setembro 21, 2014

Enéias Tavares trabalha na Universidade Federal de Santa Maria, onde ensina os Livros Iluminados de William Blake, literatura clássica e poéticas interartes. Brasiliana Steampunk é o seu primeiro projeto ficcional a ser publicado. Quanto aos outros, permanecem trancados nas gavetas de sua escrivaninha do século 19, ao lado de miniaturas mecanizadas, relógios de bolso enfeitiçados, máscaras arcanas e baralhos de tarot, que coleciona apenas por diversão. 

Confiram a entrevista!


DE: Quando começou a escrever?

ET: Ficção, ainda quando era criança e fazia histórias em quadrinhos bem sumárias para vender aos vizinhos. Quando nem os amigos compraram, percebi que não tinha tanto talento para o desenho e deixei minha "carreira" de ilustrador de lado. Na adolescência, comecei a escrever pequenos contos e poemas, tudo muito apaixonado e sentimental. Mas posso afirmar que foi apenas depois de 2009, quando estudei por um ano Escrita Criativa numa oficina ministrada por Antonio de Assis Brasil na PUC-RS, que comecei a levar a escrita realmente a sério.  

DE: Sempre sonhou em ser escritor? Sua família o apoiou?

ET: Sim, sempre desejei escrever. Adoro histórias, cresci com elas energizando minha imaginação, fomentando meus sonhos, alegrando minhas pequenas decepções ou desilusões. Meus pais nunca me incentivaram muito – por razões que considero compreensíveis. Vivemos num país em que as ditas “profissões financeiramente rentáveis” são as mais desejáveis, ao passo que seguir o caminho da arte é sempre um risco, senão uma via no mínimo tortuosa. No meu caso, primeiramente tornei-me professor, para só depois retornar de forma mais séria à minha escrita. Por outro lado, meus pais também não me desmotivaram, o que foi muito importante. Ambos sempre gostaram de ler, o que me causou uma boa impressão. Também o fato deles não terem me dado um irmão e de vivermos nos mudando acabou por intensificar minha capacidade imaginativa, uma vez que sempre brincava sozinho. Hoje, acho que acabei me tornando um pequeno herói para eles, por ter seguido esse sonho com toda a determinação que me foi possível, não abrindo mão dele por nada.

DE: O que te motiva, qual a sua inspiração para escrever?

ET: Criar um mundo que faça mais sentido que o nosso, mesmo que seja um mundo de horrores, derrotas, perigos infindos. Ficção, para mim, é criar um universo que se queira habitar, alocando neles seres atraentes e heroicos, ou talvez vilanescos. Mas personagens que nos pareçam fascinantes, apaixonantes. Brinco com amigos que escrever um romance é como um casamento ou um namoro sério, no qual você precisará conviver com um ou vários personagens por meses, talvez por anos. No caso de "Brasiliana Steampunk", que tem mais de dez personagens, todos de grande importância, foi uma relação bem promíscua, pois acabei em algum momento ou outro, me apaixonando e indo pra cama com cada um deles.

DE: Me fale sobre o seu livro, "Lição de anatomia do temível Dr. Louison". Como e por que começou a escrevê-lo? 

ET: O que ele representa para você e o que te influenciou? Eu o iniciei em 2009, como um conto de dez páginas, que acabou virando o "Interlúdio Dramático" da versão final do romance. Nele, o foco narrativo está em Louison. Em 2010, transformei o conto numa novela de sessenta ou setenta páginas, que incluía o conto e apresentava o personagem Pedro Britto Cândido, numa história tradicional sobre um investigador e um vilão. Há passagens desta versão que acabaram ficando nas partes quatro e seis do romance, narradas justamente por Cândido e Louison. Entre 2012 e 2013, os heróis da literatura brasileira foram incluídos como vozes narrativas e também o elemento Steampunk. Eu o finalizei meses atrás, exclusivamente para o concurso da Fantasy. Basicamente, essa foi a gênese de "Lição de Anatomia". Quanto ao que representa para mim: Medo, desejo, paixão, insegurança, ódio, desapontamento... e tantos outros sentimentos que são vivenciados pelos personagens. Sobre a influência, digamos que ele é minha tentativa de homenagear a linguagem da literatura brasileira, com a igual leveza e seriedade da Liga Extraordinária de Moore, com um herói de Thomas Harris num universo descrito por Anne Rice. Em resumo, como Cadão Volpato definiu "Brasiliana Steampunk": um divertido "samba do crioulo doido". 

DE: De onde vêm seus personagens, são inspirados em pessoas reais ou são fictícios?

ET: Louison, Cândido e Beatriz, além dos integrantes da Camarilha da Dor, são personagens criados por mim. Quanto ao restante, todos são criações dos mestres da literatura nacional que caíram em domínio público. Temos Soulfieri, de Álvares de Azevedo, Vitória Acauã, de Inglês de Souza, Simão Bacamarte, de Machado, Sergio e Bento de Raul Pompeia, Rita Baiana de Aluízio de Azevedo e Isaías Caminha, de Lima Barreto, entre outros. E não, não tendo a utilizar pessoas reais como base para criações literárias. Para mim, literatura é também diversão, tanto na escrita quanto na leitura, e acho meio sem graça tentarmos recriar em papel seres de carne e osso. Para mim, a brincadeira e a graça estão justamente na criação de seres que não poderiam existir em nenhum outro lugar exceto nas charmosas páginas de um livro.

DE: Quem é seu personagem favorito? Por que, o que ele representa para você?

ET: Esta pergunta é mais ou menos como "Qual é o seu amigo predileto?" ou "Qual o seu filme favorito?". Eu amo e adoro cada um dos meus personagens por razões diversas. Adoro a elegância de Louison, a força de Beatriz, o aspecto aventureiro de Bento, a graciosa simplicidade de Rita Baiana, a angústia de Vitória Acauã, a insegurança de Isaías Caminha. E é claro que essas definições também não passam de simplificações minhas, pois gosto de pensar em cada um deles como seres carregados de gradações psicológicas. Em vista disso, gosto de cada um deles por razões diversas. Neste momento, estou trabalhando em contos inéditos alocados no universo de Brasiliana Steampunk, o que me faz justamente visitar as mentes de cada um desses heróis e viver, ao menos por algumas horas, dentro de suas cabeças e de seus desafios, vendo o mundo através dos seus olhos.

DE: No que escrever afetou a sua vida?

ET: Eu escrevo milhares de e-mails por dia, além da escrita crítica, cada vez mais uma exigência do sistema universitário atual. Levando em conta a escrita da dissertação e depois da tese, posso dizer que estou há quase uma década escrevendo milhares de palavras por dia. Assim, em termos gerais, essa guinada em relação à escrita ficcional não significou uma mudança tão grande. Agora, em termos de minha paisagem interna, tudo mudou. Escrita acadêmica é como uma luta de boxe, num contínuo avança/recua que tem a ver com análise e reflexão, sempre buscando objetividade e clareza. Já a escrita ficcional é mais como um passeio noturno por um bosque belíssimo, porém perigoso, com algumas feras à espreita. Então, posso dizer que tenho tido mais passeios noturnos nesses meses do que batalhas esportivas. Mas estou longe de aposentar as luvas de boxe, uma vez que também acredito na relevância da crítica.

DE: Onde espera chegar como escritor?

ET: Sinceramente? Não quero chegar a lugar nenhum. Adoro o lugar que estou ocupando neste exato momento, morando em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, a poucos minutos do trabalho, tendo tempo para escrever e eventualmente viajar para fazer novos amigos e divulgar o romance, nesta ordem. Em vista disso, reformularia sua pergunta para "qual seria o seu objetivo como escritor?". Diante dela, a resposta é dupla: quero continuar me divertindo e divertindo o leitor com minha ficção. Isso ocorrendo, dou-me por satisfeito.

DE: O que essa "Brasiliana Steampunk" significa para você?

ET: Uma possibilidade ficcional de me aventurar, de conhecer pessoas interessantes e apaixonantes, num mundo no qual eu gostaria de viver. O romance se passa em Porto Alegre e muitos adorarão visitar alguns dos cenários, que de fato existem! Mas é claro, não é a Porto Alegre de hoje, ou a antiga Porto Alegre dos Casais e sim a minha Porto Alegre dos Amantes, uma cidade verdejante, perigosa, soturna, decadente e mecanizada, que existe apenas em minha cabeça e que visito, infelizmente, apenas em sonhos. "Brasiliana Steampunk" significa para mim um lugar para o qual eu desejo fugir quando a rotina da vida me sufoca. Posso dizer que ela é a minha Pasárgada. E claro, eu não poderia finalizar sem uma referência literária.
Obrigado Enéias pela atenção e pela disponibilidade em responder as perguntas, nós da equipe do Sou bibliófila desejamos a você muito sucesso com seu livro e que suas obras ainda não publicadas possam sair da gaveta de sua escrivaninha e ganhar o mundo, trazendo novos personagens e situações para todos nós leitores, parabéns pelo seu talento por seu carisma.

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Autor: Facebook
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19 comentários

  1. Parabéns pela entrevista, ótimas resposta.
    beijos

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    1. Oi Rute.
      Realmente a entrevista ficou bem legal, né?
      O Enéias é uma pessoa maravilhosa e nos atendeu prontamente.

      Seja bem vinda,volte sempre e obrigado pela visita.

      Beijos.

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  2. Olá, Daniel, tudo bem?
    Não conheço a escrita do autor, mas gostei muito da entrevista. Enéias mostrou-se apaixonado pela escrita e extremamente inteligente. Adorei!

    Beijos,
    Nina & Suas Letras

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    1. Jana, tudo bem?
      Tenho certeza que, quando conhecer, vai se apaixonar.

      Obrigado pela visita.

      Beijos,

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    2. Obrigado, Janaína! Concordo com sua "leitura". Acho impossível não evidenciar paixão quando o assunto é literatura, ficção e imaginação. Acho que Brasiliana Steampunk é também uma grande homenagem ao poder das histórias e ao encanto dos heróis que nos fascinam. Grande abraço!

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  3. Delmara, eu ainda não conhecia o autor.
    Cada dia conheço um. rs
    Beijos e boa semana.
    http://marlicarmenescritora.blogspot.com/

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    1. Vivemos um momento super legal, não, Marli? Acho que a internet, as redes sociais e blogs como Sou Bibliófila justamente diminuem a distância entre o autor e seus leitores. E todos ganham, não é mesmo? Eu, particularmente, estou muito feliz em perceber as respostas e as primeiras impressões sobre "Lição de Anatomia". Um grande abraço!

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  4. Não conhecia o autor mas adorei a entrevista Daniel, muito bem feita!

    Beijos Joi Cardoso
    Estante Diagonal

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    1. Obrigado, Joi. O Enéias é uma pessoa maravilhosa e nos atendeu prontamente.

      Beijos.

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    2. Valeu, Joi, e valeu ao Daniel! Uma entrevista super divertida e gostosa. Acho que uma das mais pessoais que dei até agora. Um abraço, queridos!

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  5. Gostei de conhecê-lo, a entrevista ficou bem legal.

    http://iasmincruz.blogspot.com.br/

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    1. Ola, Iasmin, obrigado pela visita.

      Beijos.

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    2. Oi, Iasmin, tudo bem? Valeu pela mensagem. Espero que gostes também de Porto Alegre dos Amantes e de seus charmosos moradores. Um abraço!

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  6. Oi Daniel,
    Eu pude conhecer o autor na Bienal do Livro e ele é realmente um cara genial.
    Admiro muito quem escreve steampunk, é um gênero que requer muita, muita habilidade, inteligência, criatividade e atenção, tanto do leitor quanto do autor. Eu confesso que não sou das maiores fãs do gênero, mas garanti meu exemplar e em breve pretendo ler.

    Beijos,
    Mari Siqueira
    Love Lovers Blog

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    1. Oi Mari, tudo bem?
      Ele é genial sim e com certeza seu livro será um best seller.

      Beijos e obrigado pela visita.

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    2. Muito obrigado, Mariana, pelo comentário e pelo encontro na Bienal. Espero que aprecies a companhia de Rita Baiana, Louison, Beatriz, Vitória Acauã e Cia, além dos cenários dessa Porto Alegre tão antigamente moderna!

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  7. Oi!
    Adorei a entrevista.
    Não conhecia o escritor e nem o seu livro. Parece ser uma boa história e adorei as respostas dele. Ele, até respondendo, conseguiu desenvolver respostas elegantes e pomposas. Haha
    Adorei!
    Abraço!

    "Palavras ao Vento..."
    www.leandro-de-lira.com

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    1. Leandro, tudo bem?
      Garanta o livro do Enéias e embarque nessa aventura. Você não ira se arrepender.

      Obrigado pela visita.

      Abraços

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    2. Risos, caro Leandro, das "respostas elegantes e pomposas". Muito obrigado! Um pouco do que aprendi com Isaías Caminha de Lima Barreto, um dos narradores do romance. Um grande abraço, amigo!

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